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:: O Autor
Victor
Abramo
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O sequestro
O
telefone toca.
- Alô.
- É da casa do doutor Tobias de Alcântara y Alcântara Lobão?
A mulher, até então entretida com uma fotonovela enquanto a manicure arrancava
bifes e aparava unhas, ouve a explicação do estranho. De repente...
- Tobiiiiiias!!!
O grito ecoa por toda a cobertura e atira longe a espantada manicure.
- Que qui é, Dagmar? Não vai me dizer que estourou o cheque especial outra
vez.
- Não é nada disso! Tem um homem aqui no telefone dizendo que vai seqüestrar
nossos filhos!
- Quem? O Mauricinho e a Patricinha?
- É claro, idiota! Ou você tem mais algum filho?
- Deixa que eu falo com ele. Passa logo esse telefone. Alô!!!
- Doutor Tobias?
- Ele mesmo.
- Desculpe o susto em sua patroa. Mas as mulheres são assim mesmo, apavoradas.
- Quem é o senhor? Diga logo!
- Pois não. Eu represento uma quadrilha especializada em seqüestros. Coisa
do mais alto nível. De Primeiro Mundo mesmo. Temos um retrospecto que,
se for de seu interesse, posso fazer chegar às suas mãos e...
- Diga logo o que quer, homem de Deus.
- Como havia começado a explicar à Dona Dagmar, temos tudo planejado para
seqüestrar seus filhos. Temos seguido os passos deles há meses, e não
há nada que eles façam que não seja do nosso conhecimento.
- Santa Bárbara!
- Não é necessário entrar em pânico, doutor. Estou ligando justamente
para evitar maiores dissabores.
- Quer tratar de falar logo! Não vê que tudo isso é terrível?
- Na verdade tudo vai depender exclusivamente do senhor.
- Como assim?
- O senhor é uma pessoa inteligente, freqüenta as mais altas rodas da
sociedade e, mais importante, é um homem de negócios. Por isso mesmo deve
saber que um seqüestro hoje em dia exige uma infra-estrutura muito cara...
- Pera lá! Que qui é isso? Um pedido de resgate por antecipação?
- Quase isso. Eu diria que é uma promoção imperdível. O senhor por acaso
sabe quanto custa o aluguel de um fuzil-metralhadora AR-15 usado?
- Nem imagino.
- Pois é, ninguém se interessa... Mas fique sabendo que está os olhos
da cara. E a munição, então? O Comando Vermelho cobra por cada tiro disparado.
Um absurdo!
- Não entendo onde o senhor quer chegar.
- É simples. Veja bem, doutor Tobias: para seqüestrar o Mauricinho e a
Patricinha teríamos que alugar pelo menos uns dois fuzis, uma escopeta
de repetição; algumas pistolas 9 milímetros... Isso sem falar em roubar
uns dois carros, o que sempre representa um risco...
- É o fim da picada!
- É verdade. E ainda nem falei no aluguel dos ternos. O senhor não vai
querer que amanhã ou depois os jornais digam que seus filhos foram seqüestrados
por um bando de pés-de-chinelo, vai?
- Não, isso nunca!!!
- Tem mais: pense quanto iríamos gastar com a alimentação das crianças
no cativeiro. Conhecemos bem seus hábitos alimentares e temos exata noção
de quanto doeria em nossos bolsos.
- Nesse ponto o senhor tem toda a razão. A Dagmar faz todas as vontades
e...
- É compreensível. Mãe é mãe. Mas voltemos ao assunto. O senhor também
não vai querer que seus filhos fiquem presos num barraco, vai?
- É claro que não! Pelo menos um flat na Zona Sul...
- Isso mesmo. Tem idéia de quanto custaria?
- O senhor quer chegar logo ao cerne da questão.
- Chegar onde?
- Diga logo o que quer, homem!!!
- Bem, diante do que lhe expliquei, um seqüestro de categoria não lhe
custaria menos do que R$ 300 mil por cabeça.
- O senhor está louco. É um absurdo!
- Concordo. Entra plano, sai plano e os preços não param de subir. Por
isso mesmo tomei a liberdade de ligar para negociar.
- E qual é a sua proposta?
- Muito simples. Para que tudo continue em paz em sua casa o senhor nos
paga adiantado apenas R$ 200 mil pelos dois. Uma verdadeira pechincha.
Se for de seu interesse podemos ainda, por mais R$ 20 mil por cabeça,
assegurar pelo prazo de um ano que seus filhos estarão a salvo de qualquer
tentativa de seqüestro, parta ela de onde partir.
- É um desconto razoável...
- Eu lhe disse. Qualquer outra quadrilha pediria o dobro, tenha certeza.
Mas estamos em período de promoção e a a atchim!!!!
- Saúde!
- Obrigado. Passei a madrugada vigiando a Patricinha. Fiz um abajur junto
à discoteca que ela freqüenta. Aliás, não é de minha conta, doutor, mas
o senhor e Dona Dagmar deviam prestar mais atenção às companhias da Patricinha.
Aquela amiguinha com quem ela estava ontem deve calçar fácil fácil um
44 bico largo.
- Quem? A Maria João?
- Bem... Pelo que pude perceber ela está muito mais para João do que para
Maria, se é que o senhor me entende...
- Essa não! Eu vivo dizendo para a Dagmar que aquela menina não serve
para nossa Patricinha. Mas vamos lá, diga logo: como farei para entregar
o dinheiro?
- Isso não será problema. O senhor pode pôr numa caixa de correio que
fica perto da casa daquela sua amante lá da Abolição. Aliás, por falar
em amante...
- Peraí!!! Isso é um duplo sequestro com pagamento adiantado ou vai descambar
para uma vil chantagem?
- Tem toda a razão. Mas o senhor entende. Em época de crise quem se mantém
atado a um só ramo acaba quebrando. É preciso diversificar, inovar. Nós,
por exemplo, estamos para lançar uma novidade que promete cair como uma
verdadeira bomba no mercado. Eu nem devia estar falando essas coisas pro
senhor...
- Conta logo! - Promete guardar segredo? O senhor sabe, o plágio anda
solto por aí e, se alguma outra quadrilha lança a inovação antes de nós,
babau.
- Pode falar. Estou curioso.
- Pois bem: estamos para lançar um arrastão...
- Ora, quanta besteira! Arrastão já é uma coisa fora de moda, qualquer
turminha de pivetes faz. É na praia, no ônibus, nas praças...
- Doutor Tobias, faça-me o favor! Pensei que o senhor tivesse notado que
está tratando com uma pessoa de alto nível; um pós-graduado na universidade
do crime. Ou o senhor acha que eu e meus companheiros vamos assaltar um
438 no Aterro do Flamengo?
- Então não entendi como...
- Faremos arrastões, sim, mas com uma grande diferença: o bicho vai pegar
no green do Gávea Golfe; na piscina do Country, num casamento na Candelária...
- Puxa! Isso vai ser mesmo um estouro! Vocês vão aparecer em cadeia nacional
de rádio e televi...
- Por favor! Por favor, doutor! Não repita esta palavra.
- Qual?
- Cadeia. O senhor entende, é constrangedor.
- Tem razão, desculpe. Não foi intencional.
- Está desculpado. Bem, então estamos combinados? O senhor põe o dinheiro
na caixa de correio amanhã à noite. Não avise à Polícia e tudo correrá
conforme combinamos. O senhor vai querer os certificados de garantia das
crianças?
- Claro, claro.
- Então, só me resta agradecer. Foi um prazer negociar com o senhor. Até
amanhã à noite e...
- Espere, espere.
- O que foi? Alguma dúvida?
- Não, não se trata disso. Mas... já que essa negociação chegou a um bom
termo e o senhor me pareceu ser um profissional competente, me diga uma
coisa.
- Pois não.
- Quanto vocês cobrariam para seqüestrar a Dagmar por uns seis meses?
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