Religião
& Marketing
Ou como a mídia
está sendo usada - e abusada! - para promover desavenças
entre crenças diferentes e para a divulgação de um
insuportável besteirol teológico
Andando displicentemente pelas ruas em um desses dias comuns da semana, deparei-me com uma mão que me estendia um folheto. “Propaganda de vidente ou ex-voto religioso”, pensei. Não poderia ser muito diferente. O ofertante era um senhor de idade e, por algum motivo, achei que fosse evangélico.
Guardei o pedaço de papel no bolso para lê-lo na primeira oportunidade que se fez muito breve. Era metade de um folha de ofício dobrado ao meio. Algo parecido com um santinho. O título, sublinhado e em negrito, anunciava: “Disse JESUS CRISTO: Quem não nascer de novo não pode entrar no Reino de Deus”. O autor, o mesmo que fazia a distribuição do folheto, citava os livros de Pedro e João e falava sobre o “nascer de novo” tratar-se de “nascer espiritualmente. Falava ainda que “o Espírito Santo trabalha em nós de dentro para fora” e assim terminava a primeira página. “Que ótimo”, pensei, “dentro de sua visão e de seu conhecimento religioso, este cidadão está tentando esclarecer algo das palavras sagradas e levar um pouco de luz aos seus irmãos”.
Quanto eu ainda tenho que aprender...
A partir da segunda página - e até o final do pequeno texto - o tal senhor mordeu a orelha do espiritismo e, não satisfeito, atacou o outro lado, encontrando ali o catolicismo. “Outra coisa: o novo nascimento ensinado por Jesus Cristo não tem nada com a ‘reencarnação’ inventada pelo espiritismo”. Fiquei surpreso: eu não sabia que a reencarnação havia sido inventada, muito menos pelo espiritismo! E prosseguia em seu ataque no melhor estilo Tyson: “Esse ensino de que a pessoa morre e reencarna milhares de vezes é fruto da superstição do paganismo; é um desvio do sentimento religioso dos povos primitivos. E, por ser repetida milhares de vezes através dos tempos, tornou-se numa verdadeira lavagem cerebral”.
O parágrafo seguinte merece vários comentários e, para tanto, reproduzo-o na íntegra: “Allan Kardec (1804-1869) muito inteligente e profundamente religioso, decepcionado com a Igreja Católica Romana, cuja moral estava grandemente abalada, a ponto de o povo francês dizer ‘há mais filosofia na fumaça de um cigarro, do que na moral do catolicismo romano’, diante dos escândalos provocados pelos sacerdotes da Igreja; Allan Kardec revoltou-se contra a Igreja e se voltou para o espiritismo. Escreveu alguns livros, dando muita força à infame superstição e se protegeu no mundo intelectual, a ponto do espiritismo transformar-se numa grande seita no Brasil e nos países do terceiro mundo. A reencarnação ensinada pelos espíritas e o purgatório inventado por Gregório I (590-604) e hoje nos é ensinado pelos sacerdotes, não passa de uma brincadeira de mau gosto, que tem levado bilhões de pessoas para o inferno, de onde jamais poderão sair”.
Em primeiro lugar, Kardec não poderia se “voltar para o espiritismo” até porque o Espiritismo estava nascendo ali, codificado por ele. O texto acusa Kardec de escrever alguns livros e, com isso, dar “muita força à infame superstição”. Seja lá qual for a religião ou o ponto de vista do leitor, haveremos de concordar que é muito melhor que uma nova forma de pensamento cresça pela publicação de livros do que, por exemplo, pela exterminação de qualquer um que não compactue com ela. Há também neste parágrafo do texto, uma confusão de termos geralmente mal usados e que só fazem distorcer ainda mais certas idéias. Uma seita é, no principal sentido da palavra, “uma doutrina ou sistema que diverge da opinião geral”. Desta forma, qualquer religião - entendendo por isto um conjunto de crenças e dogmas - sempre começa como uma seita. Ou será que os judeus não chamaram de seita as primeiras reuniões cristãs? Infelizmente o termo seita é habitualmente usado no sentido de imputar a este ou aquele grupo - que pensa diferente “da gente” - uma característica de “comunidade fechada de cunho radical”.
Os ataques continuam querendo fazer uma ligação entre certas crenças e os males que assolam o mundo e conclui: “lembre-se que a mentira da reencarnação e do purgatório são duas armas usadas pelos demônios para encherem o inferno de homens e mulheres que não obedecem ao santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus”. Corrijam-me se eu estiver errado, mas tanto a religião defendida pelo autor do pequeno texto como as que ele ataca têm como mestre o mesmo Jesus, não é isso? No Brasil, até para fazer uma diferenciação das religiões sincréticas afro-brasileiras, o Kardecismo é também chamado de Espiritismo Cristão.
Deixando de lado o pensamento defendido pelo autor do texto, que terminava convidando o leitor a ir “a uma igreja evangélica perto de sua casa”, e também seus pontos de vistas equivocados sobre certos fatos da história religiosa da humanidade, duas perguntas ficaram martelando minha compreensão: porque desperdiçar um espaço tão pequeno e simplório atacando a religião dos outros em vez de falar da sua - quando, supostamente, seria esta a intenção - e por que usar das palavras de um Mestre, para julgar e atacar nossos semelhantes, também ditos seguidores de Jesus, quando os maiores ensinamentos deste mesmo Mestre são sobre compaixão e fraternidade?
Sim, porque eu, que não sigo religião alguma, entendo perfeitamente, dentro das minhas limitações humanas, que o evangélico, o católico romano, o católico liberal, o espírita, o budista, o umbandista, assim como o branco, o negro, o amarelo, o pobre e o rico são, todos, sem qualquer distinção, meus irmãos. E estes ataques insensatos me trazem uma dúvida atroz: por que Deus (ou seja lá como você queira chamar para não ter briga!), que em sua infinita sabedoria limitou a inteligência dos homens, não limitou também a burrice? Mas isso é outro assunto...
A partir do pequeno panfleto passei a dar mais atenção ao uso da mídia para a propaganda religiosa e qual o aproveitamento real de tal uso.
Tentei partir para uma análise da Folha Universal, da Igreja Universal, que usa como slogan “Um jornal a serviço de Deus”. Mas isso não me assustou tanto quanto a tiragem que eles fazem questão de estampar ao lado do nome do jornal: UM milhão. Você tem idéia do que significa isso? Um milhão é a tiragem da Veja quando ela consegue um bom escândalo para a capa! Um milhão é o número de usuários da Internet em todo o Brasil (em meados de 1997), segundo os dados mais otimistas! Um milhão... é muita coisa. A Folha... segue o modelo dos jornais que estamos acostumados a folhear diariamente: matérias, artigos, colunistas, sessões fixas, etc. Fala-se sobre evangelização, mas o espaço maior parece ser reservado para atacar a Rede Globo e a Igreja Católica. Também é dado muito destaque às “conversões” dos famosos. Quanto mais polêmico melhor. Ano passado estamparam um cínico Guilherme de Pádua declarando que adiou muito seu batismo “mas depois de um sonho, Deus falou ao meu coração, e eu vi que era o momento de nascer de novo”. Há espaço também para declarações do tipo “no catolicismo, Deus estava distante de mim”, como a do goleiro Taffarel.
O boom marketeiro dos evangélicos tomou novo fôlego nos anos 90. Há muita gente séria, mas também há muita gente que percebeu que a fé remove montanhas... de dinheiro. Não é segredo que muitos estabelecimentos que ostentam em suas fachadas a denominação de “igreja evangélica” são, na verdade, franquias de um bom negócio. O franqueado vira pastor e voilá, viva a fé!
No meio de tudo isso, fica o discernimento de cada um. Em um giro pelos programas televisivos das diversas instituições evangélicas, podemos perceber que há boa intenção de parte dos tele-pastores. Por vezes, mesmo não sendo evangélico, vale conferir para aprender algo sobre protestantismo. Mas, como era de se esperar, algumas instituições utilizam este espaço para fazer pouco de outras religiões e mostrar depoimentos de como o “crente” está muito melhor agora do que quando fazia parte de outra igreja ou centro espírita... ainda que absolutamente nada tenha mudado em sua vida!
Como tudo neste fim de século, a religião tem se profissionalizado, passando a olhar o provável fiel como um cliente, devendo, portanto, oferecer um produto que agrade e atinja um certo público alvo, mesmo que para isso alguns conceitos ou até o significado de certos termos precisem ser modificados. Veja o caso do Gospel. A música negra nascida no final do século passado nas igrejas evangélicas do sul dos Estados Unidos e que deu origem ao jazz e ao soul já perdeu completamente sua identidade para uma nova geração de evangélicos brasileiros. Deixou de ser um gênero, um estilo, para virar um marca. Gospel (corruptela de god spell, encanto ou palavra de Deus) é qualquer música - ou algo que pretenda ser chamado de música - com uma mensagem religiosa ou algo parecido. Daí você vai ver gospel metal, hard gospel, funk gospel, reggae gospel, forró gospel e, principalmente, trash gospel. Quando o conhecido roqueiro Lobão cortou seus longos cabelos disse a um jornalista que fizera aquilo “para não ser confundido com um bom garoto de uma banda evangélica”. Já vão longe os tempos em que os adeptos do bom e velho heavy metal eram acusados de ter pacto com o diabo. Então já sabe: se seu filho chegar em casa com um cd barulhento gravado por uma banda de cabeludos tatuados não se precipite, aquilo pode ser “uma mensagem do Senhor”.

A profissionalização serve
também para dar um ar mais atual às antigas mensagens, mesmo
porque qualquer discurso que não se utiliza da linguagem de sua
época está fadado a ser deixado de lado. Instituições
seculares que teimam em usar os mesmos discursos que eram feitos por seus
fundadores, sem trocar pontos ou vírgulas, estão destinadas
a um fracasso total.
Um bom exemplo de aproveitamento da mídia e da importância de modernização da linguagem vem da Visão Nacional de Evangelização - Vinde. O trabalho iniciado há mais de 20 anos pelo pastor presbiteriano Caio Fábio soube atender aos apelos do seu tempo. Caio é, sem dúvida, um homem de visão. Aos 42 anos, já publicou mais de 80 livros, é apresentador do Pare & Pense - um dos mais antigos programas cristãos da TV brasileira -, comanda a rádio Fluminense AM, a Vinde TV - primeiro canal evangélico por assinatura do Brasil -, sem falar na revista Vinde que tem versão impressa e também eletrônica, na Internet. A preocupação maior de todo esse aparato parece ser evangelizar, se bem que aqui e acolá sobre uma farpa para alguém ou se utilizem generalizações perigosas como no artigo Heavens's Gate: os discípulos da Nova Era.
Aliás este tem sido o foco de ataque preferido de 9 entre 10 religiões, seitas ou conversa de bar. Cunhada em um tempo onde o marketing já se tornava uma arma poderosa, a expressão Nova Era, hoje, se presta a quase tudo. Surgem, então, tropeços e confusões a todo instante. Antes, Nova Era era coisa de hippie drogado; depois passou a ser “coisa desse povo que acende incenso, tem um monte de figuras de anjos e gnomos e fica sentado fazendo ooooooooooom”. Quando aparecem loucos de verdade como os do Heaven’s Gate aí vira uma festa. É prato cheio para os céticos, contrários, outros fanáticos e desinformados de plantão.
Se as pessoas se abstivessem de falar a respeito de assuntos sobre os quais têm pouco ou nenhum conhecimento pouparia o restante da humanidade de ver e ouvir tanta bobagem. A Sabedoria Divina nos deu dois ouvidos e uma boca, provavelmente para mais ouvirmos que falarmos, e nos proveu de um pensamento muito mais rápido que a fala para podermos pensar várias vezes antes de abrir a boca. Se todos seguissem estas regrinhas não encontraríamos, por exemplo, uma home page na Internet com informações do tipo “os integrantes do movimento ‘Nova Era’ caracterizam-se principalmente por uma aspiração vaga sobre uma noção pobre de espiritualidade, que na maioria dos casos não passa de mero sentimentalismo, e aceitam de bom grado estados de ‘relax’ como se fossem estados espirituais. Não é preciso ir muito longe para encontrar adeptos do movimento. Só aqui na Internet existem aos montes! Visitando os sites do movimento percebe-se como o excesso de sentimentalismo dilui qualquer noção intelectual verdadeira”. Um primor, não?
Assim como a “invenção da reencarnação pelo espiritismo”, foi assim que fiquei sabendo que existia um “Movimento Nova Era”, que podemos chamar de MNE para facilitar. Imagino uma Central Única de Tarólogos - a CUT dando força a esse movimento, promovendo passeatas conjuntas com o Sindicato dos Magos e Bruxas e com a Associação dos Angelólogos Desfavorecidos. Engrossando as fileiras do MNE, veremos a juventude cara pintada aos brados de “Ei! Ei! Ei! Paulo Coelho é nosso rei!”. Quem sabe consiga-se promover uma passeata dos sem-vassouras de norte a sul do país e reunir todo mundo em Brasília (por que lá rola uma energia...) num grande ato público animado pela Banda Cheiro de Incenso.
Só mesmo partindo para o non sense para suportar tanta asneira. O texto na Internet está em português - visivelmente brasileiro - não tem nenhuma identificação, nenhum e-mail, nenhum forma de contato com o(s) (ir)responsável(is) por ele e está localizado em um provedor fora do país. Na página um aviso, em inglês, do provedor dizendo que “não se responsabiliza pelo conteúdo do texto”. Nele vemos a tentativa de mostrar um certo “acúmulo de conhecimentos” através de várias citações de Gaston Georgel, Mircea Eliade e sobre a teoria dos ciclos.
Tudo devidamente colocado em um liquidificador o resultado não poderia ser outro que não uma miscelânea de distorções e ataques sem qualquer fundamento. “Esses grupos new age, em geral, não chegam a ter um caráter muito prejudicial à maioria das pessoas, embora as faça perder tempo em coisas sem o menor valor. Há, entretanto, certos grupos não exatamente new age - mas que podem e certamente vão se aproveitar dessa onda - onde se observa uma pseudo-doutrina que toma elementos tirados ao acaso de doutrinas orientais autênticas. A característica dessas organizações é fundir num mesmo caldeirão elementos das mais diversas procedências produzindo uma doutrina sem a menor unidade espiritual, sendo que cada um pode achar nelas aquilo que bem quiser (e esse é o caso de uma certa Sociedade Teosófica)”. Parei neste ponto e pensei que seria compreensível - não aceitável - que uma pessoa que não tivesse sido aceita por uma ordem, como a Maçonaria, por exemplo, pudesse se encher de rancor e passar a atacá-la, mesmo sem saber do que se trata, de seus princípios ou do que se faz em uma Loja Maçônica; mas fazer este tipo de crítica à Sociedade Teosófica que está ali aberta a todos, onde a maioria de suas reuniões são públicas, onde se discute abertamente sobre religião, filosofia e ciência, onde não há dogmas ou rituais, onde qualquer crente de qualquer religião é bem-vindo, isto é, no mínimo, uma total ignorância a respeito do que seja o alvo do ataque.
No caso específico da Sociedade Teosófica - que não é uma religião ou seita mas tão somente um grupo de estudos e, consequentemente, a prática do resultado destes estudos, isto é, a formação de um núcleo da fraternidade universal independente de sexo, raça, casta, crença ou cor - o ataque se torna ainda mais sem sentido pelo fato de que ela não surgiu ontem (existe há mais de 120 anos) e não tem interesse nenhum em formar um rebanho ou mesmo incutir quaisquer tipo de idéias nas cabeças de seus membros ou simpatizantes.
Nas palavras de uma de suas fundadoras, Helena Petrovna Blavatsky, “todos os membros da Sociedade Teosófica são livres para professar qualquer filosofia ou religião que desejarem, ou nenhuma se assim preferirem, desde que estejam em sintonia com, e prontos a realizar, um ou mais dos três objetivos da Associação. A Sociedade é um organismo filantrópico e científico para a difusão da idéia da fraternidade em bases práticas, e não teóricas. Os membros podem ser cristãos ou mulçumanos, judeus ou parses, buddhistas ou brâmanes, espiritualistas ou materialistas, isto não importa; mas todo membro deve ser um filantropo, ou um estudioso, um pesquisador de literatura antiga, ou um estudante dos fenômenos psíquicos. Em síntese, ele tem que ajudar, se puder, na realização de pelo menos um dos objetivos do programa”.
O anônimo autor do ataque na Internet diz que “muitas seitas procuram desenvolver ‘os poderes latentes do homem’ acreditando (com boa ou má fé) que esse desenvolvimento possa levar a algum grau de espiritualidade. Podemos encontrar esse preceito no programa da seita Sociedade Teosófica” - lá vem o mal e, no caso, incabível uso do termo seita - “na qual se afirma que um dos seus objetivos é ‘investigar as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no homem’”. Não creio que um investigador de polícia esteja procurando desenvolver um caráter criminoso ao investigar um crime; também não creio que um jornalista esteja pretendendo tornar-se corrupto pelo fato de estar investigando atos de corrupção de uma determinada pessoa ou instituição; da mesma forma, os membros da Sociedade Teosófica investigam as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no homem sem, no entanto, procurar desenvolver estes últimos. É bem sabido que os fundadores da atual Sociedade Teosófica conseguiram polarizar a antipatia de muitos justamente pelo fato de combater o psiquismo que aflorava no final do século passado.
Sobre isto, Blavatsky também esclarece em A Chave para a Teosofia - um livro de perguntas e respostas sobre Teosofia e a Sociedade Teosófica que, em cerca de 350 questões, esclarece qualquer dúvida a respeito do tema - da seguinte maneira: “Nosso dever é manter vivas no homem suas instituições espirituais. Opor-nos e combater - após a devida investigação e prova de sua natureza irracional - o fanatismo em todas as formas: religiosa, científica ou social, e a hipocrisia sobretudo, seja como sectarismo religioso ou como crença nos milagres ou qualquer coisa sobrenatural. O que temos de fazer é procurar obter o conhecimento de todas as leis da natureza e difundi-lo. Encorajar o estudos das leis menos compreendidas pelas pessoas de hoje - as assim chamadas Ciências Ocultas - baseado no verdadeiro conhecimento da natureza, e não, como atualmente é feito, em crenças supersticiosas fundamentadas na fé cega e na autoridade”.
Diante do exposto, percebemos que a tolerância que fez aparecer novas crenças, seitas e religiões gera um número maior de “focos de intolerância”. É como o que vemos nos horários de propaganda política. Quando um pequeno partido tem 15 ou 30 segundos de espaço eles usam este tempo atacando os que são contrários as suas idéias em vez de mostrar as suas. A preocupação atual é de queimar a grama do vizinho que está parecendo mais verde e, assim, esquecemos de regar a nossa.
Fica perdido o sentido literal do vocábulo religião. O religare deixa de existir e o que se vê são grupos competitivos, sectários, cada vez mais radicais, que só fazem o contrário: afastar o homem seja de Deus ou de seus próprios irmãos.
Uma anedota conhecida nos meios espiritualistas conta que, cansado de tanto ouvir os homens chamarem por seu nome a todo instante, Deus resolveu tirar férias. Mas onde quer que ele fosse lá estava o homem: “Ah, meu Deus!”, “Pelo amor de Deus!”, “Valha-me, Deus!”. O Senhor então reuniu a nata das hostes celestiais para, juntos, encontrarem um lugar onde ele pudesse descansar em paz. “Tire férias na Lua, Senhor”, sugeriu São Jorge. “Não adianta”, respondeu Deus, “o homem vive por lá, isso sem falar no bafo daquele dragão”. “Então vá para Marte”, opinou um Arcanjo. “O homem também já chegou lá e já-já aquilo vai estar a mesma bagunça que na Terra”. “Por que não vai para as profundezas do Oceano?”, propôs um santo. “Hum, quando eu pensei que Jacques Costeau ia me deixar em paz, inventam máquinas que descem ainda mais fundo no Oceano”. Desolado, Deus sai da reunião achando que não havia jeito de se esconder do homem. Um anjinho que estava por ali, varrendo uma nuvem, percebeu o estado do Pai e perguntou o que estava acontecendo. Após ouvir as queixas do Todo Poderoso, o anjinho disse: “Ah, eu conheço um lugar onde o senhor pode descansar em paz e onde o homem não irá perturbá-lo”. “Que audácia”, pensou Deus, seus mais altos representantes e Ele próprio, que é onipresente, não conheciam um lugar onde Ele pudesse ficar em paz, como um simples anjinho poderia ter tal conhecimento? Ainda assim, com toda sua educação e sabedoria, permitiu que a pobre criaturinha desse sua sugestão, ao que o anjo disse: “Tire férias no coração do homem. Lá ele não poderá encontrá-lo. Ele irá procurar em todos os lugares, menos em seu próprio coração”.
Parece que Deus aceitou a sugestão.
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Apesar da imensa diversidade que oferecem do ponto de vista exterior, todas as religiões têm um fundo comum em idéias dogmáticas, filosóficas e morais. De fato, o estudo comparado das religiões demonstra que os ensinamentos fundamentais sobre a Divindade, o homem, o universo e a vida futura, são substancialmente idênticas em todas elas, apesar de sua diferença aparente. São as mesmas verdades cobertas pelo véu próprio das religiões exotéricas que o desfiguram em parte. É como uma luz branca em um farol que tem em cada um de seus lados um vidro de cor diferente e, dependendo de qual lado se olha, parece roxa, azul, verde ou amarela; quebrem-se os vidros e todo mundo verá a mesma luz em sua pura cor natural. Este fundo comum de todas as religiões dignas deste nome se explica porque todas elas dimanam da Grande Fraternidade de Instrutores espirituais, que transmitiram aos povos e raças as verdades fundamentais da religião sob a forma mais apropriada às necessidades daqueles que deveriam recebê-las, assim como as circunstâncias de lugar e tempo. Por isto se diz que a questão religiosa é principalmente uma questão geográfica; assim, um é muçulmano por haver nascido na Arábia; católico porque viu a primeira luz na Espanha, etc. Em sua sublime missão, os excelsos fundadores de religiões foram ajudados por certo número de indivíduos iniciados e discípulos de graus diversos, homens eminentes por seu saber e seus relevantes dotes morais. Outra causa poderosa de antagonismo entre os que professam diferentes credos religiosos são as corrupções introduzidas por seus representantes, que os modificam e trocam a sua vontade, impulsionados por motivos egoístas. Helena Petrovna Blavatsky, no Glossário Teosófico |
© Copyright da revista ISIS, agosto de 1997 - by Sandro Fortunato
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